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Manifesto Político

E a esperança de uma nova democracia

Agora que nossa crise política parece estar em uma fase morna, talvez seja mais interessante falar a respeito. Não que eu ache que continuará morna, mas, pelos menos na grande mídia, está morna neste momento. O que acredito ser o mais importante, e grave, neste lamaçal em que estamos atolados, não é tanto os incontáveis crimes em que nossa classe política se meteu, mas o fato de que a maioria dos brasileiros, na verdade, não acredita que poderia ser diferente. 


Eu arrisco dizer que a maioria das pessoas não está de fato preocupada com nossa crise política, apenas não quer ser incomodada, quer resolver os seus problemas, o que sem dúvida é justo, mas não é suficiente, para sermos, finalmente, o país que devemos ser. E que podemos ser.

Não é preciso ser um grande analista político para perceber que uma vez que o mesmo Congresso corrupto permanece, não teremos algo muito diferente neste governo interino. E que digam os dois ministros do governo interino que saíram um tempo atrás. 

O PT, por sua vez, ao invés de fazer a penitência que deveria fazer, para o usar o termo bem católico e adequado à sua situação, preferiu sair a caça de novas fantasias, que pudessem ser bem vendidas à população. Fez-se de vítima e tentou demonstrar que na cidade em que governa Hadad, a população sofre de um anti-petismo irrefreável, não importa que três de seus prefeitos tenham sido do PT no passado recente. Diz que sofreu um golpe, é confuso falar de golpe em um país em que os votos no Congresso eram comprados. 

Já sofremos um golpe, um não, vários, e há muito tempo. Ainda que estejam todos de acordo com as leis.

E antes que digam que esses trechos são uma torcida enrustida pelo PSDB, não é. 

Nesta crise às vezes me senti no meio de uma briga de torcidas. Cadeiras voando para todo lado, crianças gritando, pauladas...ameaça de tiros. E no meio disso tudo, algumas pessoas estavam reclamando que alguém tinha sentado no seu lugar. Repeitar lugares numerados é importante, mas não é prioritário quando o mundo está acabando. 

Sim, há pessoas boas em todos os partidos. Há pessoas boas em partidos ruins, em projetos políticos ruins. Mas as pessoas boas também aprendem, cedo ou tarde, que muitas vezes aquilo que parecia uma boa ideia ou um bom projeto, era na verdade apenas mais um dos erros que os homens acumularam ao longo da história. Eu já abracei alguns deles, e não vejo porque teria receio de abandoná-los. 

Hoje, há uma grande rede de corrupção no país, se é que se pode dizer isso, já que corrupção nenhuma cria algo de estável, muito menos uma rede. Há fragmentos de interesses, tênues, e uma grande nuvem densa de orgulho e inveja na maioria das nossas organizações, sejam civis, sejam empresariais, sejam políticas. Assim, não basta trocar governos, ou algum arremedo do tipo, nosso país é uma terra arrasada. E as pequenas comunidades que passaram por esta crise ilesas ou com arranhões que não a comprometeram profundamente não têm uma reforma a empreender, mas sim uma verdadeira guerra de conquista para a solidariedade, a honestidade e a honra verdadeiras.

E por onde começar essa guerra de conquista? Como católico, eu não tenho receio de esperar que essa conquista comece pelas comunidades católicas. Se esperasse algo diferente, não seria católico, seria algo diferente. E isso não tem nada a ver com um estado teocrático, ou em sair por aí impondo valores ou crenças. E, obviamente, como a verdadeira acepção da palavra católico pede, em parceria com as pessoas de boa vontade, que por uma razão ou outra não comunguem de nossa fé, em diálogo, com paciência, com serenidade. Mas sem medo e com altivez.

Claro, há grupos com posições bem diferentes da nossa que têm muito a contribuir. 

Edith Stein, filósofa judia convertida ao catolicismo, cujo verdadeiro nome é Teresa Benedita da Cruz, já que o nome adotado pelos religiosos é o verdadeiro nome destes, apontava que o estado nasce da solidariedade natural entre indivíduos, que forma comunidades. Bem diferente dos liberais ingleses e iluministas franceses, que não conseguiam ver um estado que não tenha surgido da defesa da propriedade, do medo, ou da vigilância de pessoas  egoístas e invejosas que querem o poder umas das outras. Sim, isso existe, não somos ingênuos, mas isso não sustenta uma sociedade digna desse nome.

Durante muito tempo, a Igreja se confundiu com a sociedade civil. Era a alma da cidade por assim dizer. Neste momento em que a sociedade civil vai consolidando uma longa separação da Igreja, talvez seja o momento de deixarmos essa realidade mais evidente, a dimensão social, civil, da vida da Igreja.

Nosso Senhor instituiu apóstolos e os apóstolos instituíram, em nome dEle diáconos, que tinham como atividade principal o provimento de bens materiais para os pobres das suas comunidades. Hoje, temos muito mais, em termos materiais, do que aqueles diáconos, temos universidades, hospitais, escolas...lembro de ter feito uma conta uma vez em que se a Igreja fosse um país, teria uma rede de hospitais semelhante a do Brasil, um dos maiores países do mundo. Nessa época em que as cidades se esfacelam, precisamos retomar aquela solidariedade primeira, que fez milhares de mosteiros sem pobres ao longo da história. 

Precisamos de novos mosteiros. Se no passado os eremitas solitários se reuniram e formaram cenóbios e depois estes se aperfeiçoaram em mosteiros, hoje talvez precisemos de novos mosteiros, sem abandonar os antigos, que atravessem as cidades e que sejam a céu aberto.

E assim fazer brilhar a verdadeira face do que devemos ser.

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