Archive for Janeiro 2016

DEVOÇÃO MARIANA



A devoção à Virgem Maria pode ser entendida a partir de Lc 12, 42-44. O texto bíblico diz que àquele que for encontrado como "administrador fiel", o Senhor confiará todos os seus bens. A Mãe do Senhor administrou fielmente aquilo que lhe foi confiado e assim se tornou dispensadora de todas as graças. 

Ainda se pode perceber o mesmo na imagem de Nossa Senhora das Graças, quando a Virgem apareceu a Santa Catarina Labouré em 1830. Nos dedos da Virgem apareciam aneis, dos quais partiam muitos raios, que simbolizavam as graças derramadas sobre a humanidade. As graças não partem das mãos da Virgem, mas dos aneis que lhe foram dados. 

Desconheço se os argumentos acima constam em algum dos documentos da Igreja ou mesmo nos escritos dos Santos, mas acredito serem conformes a fé católica. E me foram úteis para compreender, tanto quanto nos é possível, este mistério. 

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CRIANÇAS E ATEÍSMO



Recebi de uns amigos o vídeo acima com este depoimento de uma menina de 8 anos sobre sua crença no ateísmo e a sua relação com a colegas, professores e a escola em geral. O vídeo teve muitas visualizações no Youtube e a menina é sem dúvida muito esperta e inteligente, além de muito simpática. Algumas pessoas podem ter recebido o vídeo com indiferença, ou mesmo tê-lo meio que desprezado por se tratar de uma criança, mas eu achei bastante interessante. 

Bem, eu levo a sério o depoimento dessa criança. Sabendo, é claro dos limites da idade e da influência que o seu meio exerce sobre ela, além é, claro, do fato de que ela não postou o vídeo sozinha e nem sabe ao certo como é que o vídeo se encaixa no movimento de que ela participa e  menos ainda como pode ser utilizado no debate cultural contemporâneo.

Mas eu levo a sério por também ter questões bem sérias já por volta dessa idade. Eu me afligia com a passagem do tempo e não acreditava no ensino religioso que recebia na época. Para ter uma ideia, eu cheguei a sentar de costas para o altar quando meus pais me levaram à Missa algumas vezes, em sinal de protesto, e com 10 anos eu me neguei a professar, conscientemente, "Creio na Santa Igreja Católica", na minha Primeira Comunhão. E para mim eram atos sérios, que praticava com consciência.

E tive ainda sérias questões sobre a relação entre as crianças e a religião que podem ser lidas aqui. E somente aos 13 anos, depois de uma forte experiência religiosa foi que me converti ao catolicismo. E com isso não pretendo realizar nenhuma forma de proselitismo barato, mas apenas apresentar um fato importante para o meu argumento.

Agora, o que vídeo dá entender sem dizer, what goes without saying, é a ideia de que há crianças sofrendo bullying dos colegas em várias escolas por serem ateias e de professores obrigando as crianças à oração. Bem, nada mais fora da realidade.

Nas últimas semanas estive procurando com minha esposa uma escola católica para nossa filha mais velha e foi difícil encontrar uma escola católica que, por mais estranho que possa parecer para quem não está familiarizado com a discussão, lecionasse ensino religioso católico. Não sei se os ateus e praticantes de outras religiões percebem esta dimensão do catolicismo contemporâneo. Quando vêm com essa discussão de fundamentalismo religioso, percebo que estamos em universos paralelos. E é preciso construir uma ponte, interestelar, que seja.

Na grande maioria das escolas católicas, a aula de ensino religioso é inter-religiosa, não-confessional e as aulas de catequese, em que se apresenta a fé católica, são fora do horário de aula para as crianças das famílias que assim desejarem. Mesmo em escolas com ensino religioso católico, crianças evangélicas, de outras religiões ou de religião nenhuma são admitidas e não são obrigadas a participar de todas as atividades, mesmo tendo escolhido livremente estudar em uma escola católica.

As escolas católicas têm tanto receio de impor ou apresentar subliminarmente a sua fé, que em certos círculos católicos discute-se se esse processo não nos levou ao excesso de perdermos nossa própria identidade. Há um intenso debate dentro da Igreja Católica se o diálogo com o mundo moderno ao longo do século XX não terminou por gerar uma “auto-secularização” católica.

E por mais importante que seja esse debate, aqui só quero apresentá-lo para dizer quão longe o movimento ateísta está da realidade ao falar, ou sugerir, a perseguição de crianças e adolescentes ateias nas escolas. É um completo absurdo. Absurdo nas escolas católicas, que são a maioria das escolas religiosas brasileiras.

Acredito que o diálogo, a tolerância e o respeito à diversidade (e diversidades de verdade, como entre os que não creem e os que creem, por exemplo) juntamente com o amor e a busca pela verdade, aquela que é única e nos faz todos humanos, pode ser o elo e o fio condutor da sociedade brasileira pós-moderna e plural que está emergindo em nossas metrópoles e deve avançar pelas próximas décadas.

E para que isso aconteça, é preciso que nos levemos a sério. Os ateus talvez não saibam quão a sério a Igreja Católica os toma. Os diálogos do Papa Bento XVI com Habermas e Paolo Flores d’Arcai e do Papa Francisco com Scalfari são ilustrativos nesse sentido. Mas também precisamos ser levados a sério.

Penso que as famílias podem se organizar em associações nas escolas públicas para que seus filhos recebam educação religiosa de acordo com suas crenças e valores. Ou que não recebam educação religiosa, mas outra coisa que julguem mais pertinente. E acho que isso é perfeitamente factível em parceria com igrejas, associações e movimentos sociais, podendo, inclusive, criar um ambiente propício para o diálogo. Pois que para que o diálogo aconteça é necessário que exista antes identidade e diversidade. Não há por que imaginar que afirmar nossa identidade seja uma forma de afronta.

Coincidentemente ou não, a UNESCO está por esses dias com vagas abertas para consultores em ensino religioso. Assim, parece que teremos em breve novos capítulos deste tema.

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