Archive for 2016

Manifesto Político

E a esperança de uma nova democracia

Agora que nossa crise política parece estar em uma fase morna, talvez seja mais interessante falar a respeito. Não que eu ache que continuará morna, mas, pelos menos na grande mídia, está morna neste momento. O que acredito ser o mais importante, e grave, neste lamaçal em que estamos atolados, não é tanto os incontáveis crimes em que nossa classe política se meteu, mas o fato de que a maioria dos brasileiros, na verdade, não acredita que poderia ser diferente. 


Eu arrisco dizer que a maioria das pessoas não está de fato preocupada com nossa crise política, apenas não quer ser incomodada, quer resolver os seus problemas, o que sem dúvida é justo, mas não é suficiente, para sermos, finalmente, o país que devemos ser. E que podemos ser.

Não é preciso ser um grande analista político para perceber que uma vez que o mesmo Congresso corrupto permanece, não teremos algo muito diferente neste governo interino. E que digam os dois ministros do governo interino que saíram um tempo atrás. 

O PT, por sua vez, ao invés de fazer a penitência que deveria fazer, para o usar o termo bem católico e adequado à sua situação, preferiu sair a caça de novas fantasias, que pudessem ser bem vendidas à população. Fez-se de vítima e tentou demonstrar que na cidade em que governa Hadad, a população sofre de um anti-petismo irrefreável, não importa que três de seus prefeitos tenham sido do PT no passado recente. Diz que sofreu um golpe, é confuso falar de golpe em um país em que os votos no Congresso eram comprados. 

Já sofremos um golpe, um não, vários, e há muito tempo. Ainda que estejam todos de acordo com as leis.

E antes que digam que esses trechos são uma torcida enrustida pelo PSDB, não é. 

Nesta crise às vezes me senti no meio de uma briga de torcidas. Cadeiras voando para todo lado, crianças gritando, pauladas...ameaça de tiros. E no meio disso tudo, algumas pessoas estavam reclamando que alguém tinha sentado no seu lugar. Repeitar lugares numerados é importante, mas não é prioritário quando o mundo está acabando. 

Sim, há pessoas boas em todos os partidos. Há pessoas boas em partidos ruins, em projetos políticos ruins. Mas as pessoas boas também aprendem, cedo ou tarde, que muitas vezes aquilo que parecia uma boa ideia ou um bom projeto, era na verdade apenas mais um dos erros que os homens acumularam ao longo da história. Eu já abracei alguns deles, e não vejo porque teria receio de abandoná-los. 

Hoje, há uma grande rede de corrupção no país, se é que se pode dizer isso, já que corrupção nenhuma cria algo de estável, muito menos uma rede. Há fragmentos de interesses, tênues, e uma grande nuvem densa de orgulho e inveja na maioria das nossas organizações, sejam civis, sejam empresariais, sejam políticas. Assim, não basta trocar governos, ou algum arremedo do tipo, nosso país é uma terra arrasada. E as pequenas comunidades que passaram por esta crise ilesas ou com arranhões que não a comprometeram profundamente não têm uma reforma a empreender, mas sim uma verdadeira guerra de conquista para a solidariedade, a honestidade e a honra verdadeiras.

E por onde começar essa guerra de conquista? Como católico, eu não tenho receio de esperar que essa conquista comece pelas comunidades católicas. Se esperasse algo diferente, não seria católico, seria algo diferente. E isso não tem nada a ver com um estado teocrático, ou em sair por aí impondo valores ou crenças. E, obviamente, como a verdadeira acepção da palavra católico pede, em parceria com as pessoas de boa vontade, que por uma razão ou outra não comunguem de nossa fé, em diálogo, com paciência, com serenidade. Mas sem medo e com altivez.

Claro, há grupos com posições bem diferentes da nossa que têm muito a contribuir. 

Edith Stein, filósofa judia convertida ao catolicismo, cujo verdadeiro nome é Teresa Benedita da Cruz, já que o nome adotado pelos religiosos é o verdadeiro nome destes, apontava que o estado nasce da solidariedade natural entre indivíduos, que forma comunidades. Bem diferente dos liberais ingleses e iluministas franceses, que não conseguiam ver um estado que não tenha surgido da defesa da propriedade, do medo, ou da vigilância de pessoas  egoístas e invejosas que querem o poder umas das outras. Sim, isso existe, não somos ingênuos, mas isso não sustenta uma sociedade digna desse nome.

Durante muito tempo, a Igreja se confundiu com a sociedade civil. Era a alma da cidade por assim dizer. Neste momento em que a sociedade civil vai consolidando uma longa separação da Igreja, talvez seja o momento de deixarmos essa realidade mais evidente, a dimensão social, civil, da vida da Igreja.

Nosso Senhor instituiu apóstolos e os apóstolos instituíram, em nome dEle diáconos, que tinham como atividade principal o provimento de bens materiais para os pobres das suas comunidades. Hoje, temos muito mais, em termos materiais, do que aqueles diáconos, temos universidades, hospitais, escolas...lembro de ter feito uma conta uma vez em que se a Igreja fosse um país, teria uma rede de hospitais semelhante a do Brasil, um dos maiores países do mundo. Nessa época em que as cidades se esfacelam, precisamos retomar aquela solidariedade primeira, que fez milhares de mosteiros sem pobres ao longo da história. 

Precisamos de novos mosteiros. Se no passado os eremitas solitários se reuniram e formaram cenóbios e depois estes se aperfeiçoaram em mosteiros, hoje talvez precisemos de novos mosteiros, sem abandonar os antigos, que atravessem as cidades e que sejam a céu aberto.

E assim fazer brilhar a verdadeira face do que devemos ser.

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AMORIS LAETITIA: a alegria no casamento

Ou sobre a grande, imensa, alegria do casamento




Bem, eu ainda não li o texto completo da Amoris Laetitia. Mas os trechos que li, a postura do Papa Francisco de maneira geral nos últimos anos e os comentários de alguns amigos me levaram a refletir sobre as razões que me levaram a me casar, lembrar as razões que me fizeram escolher esse caminho.

Caminho que há alguns anos atrás era tão estranho quanto é hoje para a maioria das pessoas (e não me refiro só a jovens e adolescentes). Afinal, o que faria dois jovens em pleno juízo, pelo menos assim achávamos, rs, escolher aguardar o casamento para viverem mais intimamente juntos e depois, sem muito dinheiro, escolher logo ter filhos. E agora, quase 7 anos depois, já são 3! Uma bela escadinha, rs.

É claro que nem tudo saiu como o planejado, mas, em linhas gerais, fomos mais do que atendidos até aqui nos objetivos que traçamos. Estamos mais felizes do que queríamos, ou achávamos possível alguns anos atrás. Não por que não tivemos dificuldades. Tivemos e temos muitas, mas as temos vencido todas juntos.

Não havia nenhuma pressão social para que agíssemos assim, pelo contrário, mesmo nos ambientes religiosos, não era incomum nos encontrarmos contra a corrente. Mas de maneira geral, as pessoas mais admiravam do que criticavam.

E essa discussão é particularmente importante no contexto atual, nas chamadas "cultural wars" pela mídia católica americana, em que se travam batalhas acerca da redefinição dos conceitos ligado ao casamento e à sexualidade humana.

Pensando sobre o assunto percebi que nenhuma regra me motivou a agir assim. O que me motivava era o amor que eu havia experimentado e o Cristo que havia encontrado. Diante de tanto amor, de tanta beleza, eu não conseguia conceber outra forma de me envolver com alguém, se não por uma entrega completa, radical, inteira.

Se não fosse assim, eu me sentiria covarde, traindo o amor que tinha visto e experimentado. E simplesmente não queria. Por que buscar o segundo melhor, quando o primeiro é tão superior e as outras opções nem lhe chegam aos pés em termos de felicidade e satisfação?

Acho que é comum as pessoas caírem em dois erros: o primeiro é imaginar que a felicidade consiste em não ter dificuldades. Pelo contrario, a felicidade consiste em vence-las com gosto, com alegria e com vigor!

O outro é não acreditar que seja possível. E acho que este seja o erro mais comum. As pessoas simplesmente não acreditam que seja possível que duas pessoas possam realmente se amar inteiramente, serem fiéis uma à outra e serem felizes. Mas podemos. Da maneira certa, podemos. E se não acreditarmos nisso, como poderíamos suportar as batalhas de cada dia, quem é que consegue sustentar uma guerra diária para no final das contas ter apenas uma felicidade possível, ou uma alegriazinha? Quem consegue se motivar dessa maneira? 

Não é de estranhar que, entre os que pensam assim muitos tombem pelo caminho.

Acredito ainda que há muito a ser dito ainda sobre o casamento. Há mistérios na Igreja que vão se revelando aos poucos, vejamos o dogma da Imaculada Conceição, por exemplo. A Igreja o intuía muitos séculos antes, os franciscanos já falavam abertamente dele pelos anos 1200, mas a Igreja só o proclamou no começo século XIX, e pouco depois a própria Virgem Santíssima o confirmou.  Não seria assim com o casameto? Um mistério a ser revelado, e até purificado, pela crise que vivemos?

O casamento talvez seja o menos estudado dos 7 sacramentos. São Paulo diz que o casamento é imagem, sinal do amor entre Cristo e a Igreja, Cristo esposo da Igreja e esposo de cada alma como se fosse a única criatura do universo. Esposo da minha alma e de todos os que foram remidos pelas águas do batismo. 

Para além da geração de filhos e da segurança dos membros, a família é o sinal no tempo de um amor eterno e infinito, os esposos espelham a grandeza e a solicitude do amor Divino.

O casamento é ainda uma via de purificação e de expiação. Os esposos se purificam mutuamente de seus defeitos e suas fraquezas para assumirem a imagem de Cristo, até que já não sejamos nós que vivamos, mas Cristo que viva em nós. 

Eu me pergunto: se não fosse a minha esposa, eu não estaria atolado em um lamaçal de egoismozinhos e fraquezas? Com os filhos, quanta força encontrei em mim! Quanta coragem! São eles a minha força e a minha coragem. Sim, é claro que tenho meus defeitos, mas como sou melhor por causa deles!

Talvez algumas pessoas lendo este post achem que sou ingênuo. Ou que esteja mentindo. Obviamente não estou mentindo e à acusação de ingênuo, diria que não, mas que gostaria muito que eu fosse, na verdade, completamente inocente. Como alguém que deseja as coisas sem mancha e que não aceita comer um banquete misturado com lama, que penso que é como devemos desejar todas as coisas, inteiras. 

É verdade que nem sempre nossa vida segue assim um caminho reto, claro, na maioria dos casos é cheia de idas e vindas, com curvas, obstáculos, avanços e retrocessos, como os rios chineses, tortuosos antes de chegarem ao mar, como ouvi esses dias. Eu tenho muitas coisas de que já me arrependi amargamente. Mas o que seria do rio se desistisse de chegar ao mar? Ou deságua em um rio maior ou vai ao mar, mas é preciso ir em direção ao maior, ao mais perfeito. Não sejamos nós como o único rio do mundo que termina em um deserto.

O casamento bem vivido é caminho firme, é chão sólido, não é um equilíbrio numa corda bamba, se acreditarmos e nos confiarmos àquele que tem sabedoria para governar bem os corações.

Eu poderia escrever sobre técnicas de gerenciar conflitos, tolerar uma vida medíocre ou aceitar eternas fraquezas. E isso não quer dizer que não as tenhamos. Ou poderia escrever sobre regras morais. Mas seria mentira. O que me faz feliz não é nenhuma dessas coisas, apesar da importância que também têm. 

É um levantar sempre na direção dAquele que me ama, e pode governar meu coração. 

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A CRISE ATUAL: DA FALÊNCIA DE UM MODELO À BUSCA DE ALTERNATIVAS


Segue convite do evento que estamos realizando juntamente com o NFC e a Oficina Municipal.
Todos convidados!


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DEVOÇÃO MARIANA



A devoção à Virgem Maria pode ser entendida a partir de Lc 12, 42-44. O texto bíblico diz que àquele que for encontrado como "administrador fiel", o Senhor confiará todos os seus bens. A Mãe do Senhor administrou fielmente aquilo que lhe foi confiado e assim se tornou dispensadora de todas as graças. 

Ainda se pode perceber o mesmo na imagem de Nossa Senhora das Graças, quando a Virgem apareceu a Santa Catarina Labouré em 1830. Nos dedos da Virgem apareciam aneis, dos quais partiam muitos raios, que simbolizavam as graças derramadas sobre a humanidade. As graças não partem das mãos da Virgem, mas dos aneis que lhe foram dados. 

Desconheço se os argumentos acima constam em algum dos documentos da Igreja ou mesmo nos escritos dos Santos, mas acredito serem conformes a fé católica. E me foram úteis para compreender, tanto quanto nos é possível, este mistério. 

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CRIANÇAS E ATEÍSMO



Recebi de uns amigos o vídeo acima com este depoimento de uma menina de 8 anos sobre sua crença no ateísmo e a sua relação com a colegas, professores e a escola em geral. O vídeo teve muitas visualizações no Youtube e a menina é sem dúvida muito esperta e inteligente, além de muito simpática. Algumas pessoas podem ter recebido o vídeo com indiferença, ou mesmo tê-lo meio que desprezado por se tratar de uma criança, mas eu achei bastante interessante. 

Bem, eu levo a sério o depoimento dessa criança. Sabendo, é claro dos limites da idade e da influência que o seu meio exerce sobre ela, além é, claro, do fato de que ela não postou o vídeo sozinha e nem sabe ao certo como é que o vídeo se encaixa no movimento de que ela participa e  menos ainda como pode ser utilizado no debate cultural contemporâneo.

Mas eu levo a sério por também ter questões bem sérias já por volta dessa idade. Eu me afligia com a passagem do tempo e não acreditava no ensino religioso que recebia na época. Para ter uma ideia, eu cheguei a sentar de costas para o altar quando meus pais me levaram à Missa algumas vezes, em sinal de protesto, e com 10 anos eu me neguei a professar, conscientemente, "Creio na Santa Igreja Católica", na minha Primeira Comunhão. E para mim eram atos sérios, que praticava com consciência.

E tive ainda sérias questões sobre a relação entre as crianças e a religião que podem ser lidas aqui. E somente aos 13 anos, depois de uma forte experiência religiosa foi que me converti ao catolicismo. E com isso não pretendo realizar nenhuma forma de proselitismo barato, mas apenas apresentar um fato importante para o meu argumento.

Agora, o que vídeo dá entender sem dizer, what goes without saying, é a ideia de que há crianças sofrendo bullying dos colegas em várias escolas por serem ateias e de professores obrigando as crianças à oração. Bem, nada mais fora da realidade.

Nas últimas semanas estive procurando com minha esposa uma escola católica para nossa filha mais velha e foi difícil encontrar uma escola católica que, por mais estranho que possa parecer para quem não está familiarizado com a discussão, lecionasse ensino religioso católico. Não sei se os ateus e praticantes de outras religiões percebem esta dimensão do catolicismo contemporâneo. Quando vêm com essa discussão de fundamentalismo religioso, percebo que estamos em universos paralelos. E é preciso construir uma ponte, interestelar, que seja.

Na grande maioria das escolas católicas, a aula de ensino religioso é inter-religiosa, não-confessional e as aulas de catequese, em que se apresenta a fé católica, são fora do horário de aula para as crianças das famílias que assim desejarem. Mesmo em escolas com ensino religioso católico, crianças evangélicas, de outras religiões ou de religião nenhuma são admitidas e não são obrigadas a participar de todas as atividades, mesmo tendo escolhido livremente estudar em uma escola católica.

As escolas católicas têm tanto receio de impor ou apresentar subliminarmente a sua fé, que em certos círculos católicos discute-se se esse processo não nos levou ao excesso de perdermos nossa própria identidade. Há um intenso debate dentro da Igreja Católica se o diálogo com o mundo moderno ao longo do século XX não terminou por gerar uma “auto-secularização” católica.

E por mais importante que seja esse debate, aqui só quero apresentá-lo para dizer quão longe o movimento ateísta está da realidade ao falar, ou sugerir, a perseguição de crianças e adolescentes ateias nas escolas. É um completo absurdo. Absurdo nas escolas católicas, que são a maioria das escolas religiosas brasileiras.

Acredito que o diálogo, a tolerância e o respeito à diversidade (e diversidades de verdade, como entre os que não creem e os que creem, por exemplo) juntamente com o amor e a busca pela verdade, aquela que é única e nos faz todos humanos, pode ser o elo e o fio condutor da sociedade brasileira pós-moderna e plural que está emergindo em nossas metrópoles e deve avançar pelas próximas décadas.

E para que isso aconteça, é preciso que nos levemos a sério. Os ateus talvez não saibam quão a sério a Igreja Católica os toma. Os diálogos do Papa Bento XVI com Habermas e Paolo Flores d’Arcai e do Papa Francisco com Scalfari são ilustrativos nesse sentido. Mas também precisamos ser levados a sério.

Penso que as famílias podem se organizar em associações nas escolas públicas para que seus filhos recebam educação religiosa de acordo com suas crenças e valores. Ou que não recebam educação religiosa, mas outra coisa que julguem mais pertinente. E acho que isso é perfeitamente factível em parceria com igrejas, associações e movimentos sociais, podendo, inclusive, criar um ambiente propício para o diálogo. Pois que para que o diálogo aconteça é necessário que exista antes identidade e diversidade. Não há por que imaginar que afirmar nossa identidade seja uma forma de afronta.

Coincidentemente ou não, a UNESCO está por esses dias com vagas abertas para consultores em ensino religioso. Assim, parece que teremos em breve novos capítulos deste tema.

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