Archive for Dezembro 2011

Família


Um mal necessário? Casar e ter filhos para quê?!

Pensar sobre a família é uma discussão bastante pertinente para a véspera do Natal. Ainda mais nos dias de hoje. Certa vez um padre me disse que num levantamento informal na sua paróquia observou que apenas 50% dos casais que viviam juntos se casavam na Igreja. Hoje 40% dos casamentos com menos de 10 anos terminam em divórcio, taxa que tem aumentado a cada ano. Nos últimos dois anos esta taxa sofreu um acréscimo de 36% (1).

Se por um lado é triste observar a falência do casamento como instituição social, por outro lado esta crise acaba colocando em evidência uma dimensão que antes era pouco percebida do casamento, sua dimensão religiosa. Hoje parece mais claro que ou o casamento é alicerçado na fé ou sofre tantos ataques que não consegue permanecer em pé.

Toda crise também carrega em si uma purificação. Afinal, o casamento como instituição carregou uma série de práticas e valores nem sempre cristãos ao longo dos séculos e se o casamento natural como é conhecido de todos os povos pode entrar em extinção no Ocidente, o casamento cristão por sua vez sobreviverá. E sobreviverá mais cristão ainda, purificado daquilo que na verdade nunca lhe fez parte, como certas práticas machistas, ou o autoritarismo dos pais.

É um mistério muito grande pensarmos em Jesus no seio da família de Nazaré. Pois o Senhor viveu todos os sofrimentos, todos, ou melhor, todos com a exceção de um: o de não ser amado pelos pais. Jesus conheceu a fome, a pobreza, o exílio, a morte, a humilhação...mas não soube durante sua vida terrena o que é não ser amado pelos pais.

Será que dessa maneira Nosso Senhor nos mostra que a família não é algo externo a ser enfrentado, mas algo interno, de nossa constituição, interior e, portanto, inviolável? Será que assim Ele fala do papel fundamental de educadores dos pais, que não pode ser substituído, que é tão íntimo para os filhos que passa a ser parte deles?

Penso ainda nas mágoas e traumas que todos nós em maior ou menor grau carregamos de nossos pais. Esta dor Nosso Senhor não teve, apenas por compaixão. Penso que por isso deve olhar com profunda misericórdia sobre nós, sabendo que essas feridas são profundas, são alicerces mal feitos que comprometem todo edifício e que portanto atenuam aquilo que depois foi mal construído. Com seu Amor de Pai Nosso Senhor restitui esses alicerces.

E vamos assim descobrindo tesouros ocultos no patrimônio da Igreja, como por exemplo São João Crisóstomo que no século IV dizia para os esposos dizerem para suas esposas:

Tomei-te nos meus braços, amo-te e prefiro-te à minha própria vida. Porque a vida presente não é nada e o meu sonho mais ardente é passá-la contigo, de tal maneira que tenhamos a certeza de não ser separados naquela que nos está reservada [...]. Eu ponho o teu amor acima de tudo, e nada me seria mais penoso do que não ter os mesmos pensamentos que tu.

Este texto é parte do Catecismo da Igreja Católica e é tão belo quanto desconhecido(2).

Santa Isabel de Hungria, rainha e santa, dizia referindo-se ao seu marido:

Se eu amo de tal modo uma criatura mortal, como deveria amar ao Senhor imortal, dono da minha alma?

Ainda no tempo do Império Romano, muitas mulheres se convertiam ao cristianismo em busca de um “bom casamento”(3), já que os noivos cristãos não traiam e não abandonavam suas esposas. Lembrando que naquele tempo, ser abandonada pelo marido significava ficar sem fonte de renda, um objeto usado que ninguém mais iria querer. E é triste notar como muitos, com outras linguagens nos dias de hoje, acabam se conformando com esta mentalidade, trazendo de volta algo que o cristianismo já havia derrotado na história.

Uma história muito bonita é a de Luis Martin e Zélia Guérin que desejavam a vida religiosa, mas que por uma série de dificuldades e obstáculos não conseguiram e que por fim descobriram que sua vocação era, na verdade, o casamento. Casamento que teve muitas dores, como a perda de filhos, mas que foi muito feliz. Um dos filhos de Luis e Zélia Martin se tornou bastante conhecido: Santa Terezinha do Menino Jesus. Eles viveram no final do século XIX uma realidade que é muito importante para nossos dias: o casamento como uma via religiosa.

Não apenas como cooperação com a obra criadora de Deus por meio do nascimento e da educação dos filhos, o que já seria muito, mas como uma via de perfeição, de purificação interior, de ascese. Uma forma de ver de forma mais clara o rosto de Cristo e de torná-lo mais claro em nós.

Karl Rahner dizia que os cristãos de nosso tempo ou se tornariam místicos ou já não conseguiriam viver a fé. E penso que isso vale principalmente no âmbito familiar, é preciso saber, assim como a família de Nazaré, que não estamos somente cuidando da casa, ou de crianças, mas que em comunhão com Deus estamos salvando o mundo, por meio de pequenos sofrimentos que nos unem aos sofrimentos dEle.

Assim, todo o cuidado com os esposos e os filhos não são apenas gestos de ternura, de desapego, de dever. Essas coisas compõem, na verdade, um verdadeiro itinerário espiritual.

(3)     Como a Igreja Católica construiu a Civilização Ocidental, Thomas E. Woods Jr, graduado em Harvard e PhD pela Universidade de Columbia

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As Mentiras que as Pessoas contam



Carreira, sexo e família

Uma vez, quando era estagiário de uma multinacional, numa reunião dos estagiários a diretora de RH disse que o plano da organização era que um dia nos tornássemos diretores. Eu contei 40 estagiários e vi apenas quatro diretores na empresa. E pensei comigo que havia alguma coisa errada com esse plano. 

Outro dia estava participando de uma entrevista de emprego e a responsável do RH me disse que eu seria entrevistado pela minha futura gerente, que fez questão de vir, mesmo tendo sofrido um acidente há poucos dias. A moça me disse isso com um ar de veneração pela chefe, verdadeiro exemplo de dedicação ao trabalho.

Mas quando chegou a gerente, não conseguia entender uma palavra do que ela dizia. Ela estava com os dois braços engessados e um aparelho na boca. Ela não se mexia direito e eu não conseguia entender o que ela falava. Para que isso?! Esta mulher não deveria estar em casa descansando? E também não seria mais produtiva assim? Acabei não ficando com a vaga por uma série de razões, mas a maneira como aquelas pessoas encaravam o trabalho me fez pensar que aquela não devia ser a maneira correta de se viver.

Muitas pessoas da minha geração compraram a ideia de que o trabalho é o lugar por excelência de realização pessoal. E muitos católicos vêem em assumir posições mais elevadas no trabalho uma meta de vida. E alguns chegam até o extremo de ver no sucesso profissional um sinal do amor de Deus e reclamam quando não são os escolhidos e quando não estão com as melhores posições! E esquecem completamente que não é o que mais trabalha que é o mais recompensado e nem o mais honesto o mais privilegiado e isso se apreende dos livros de sabedoria da Bíblia.

O mundo é bom e devemos procurar a felicidade. Mas sabendo que a felicidade completa existe somente em Deus, que a felicidade aqui neste mundo estará sempre sujeita à imperfeição e será, quando bem vivida, apenas semente de uma árvore que brotará para a eternidade.

É triste notar quantos católicos se fazem de cegos diante das trapaças, mesquinharias e mentiras que se tornou o ambiente de trabalho no mundo contemporâneo. E mais ainda quando não chamam essas coisas pelo nome e dizem fazer parte do trabalho, parte do relacionamento do dia-a-dia! Na verdade, deveria nos surpreender alguém que diz ter aderido à fé imaginar que pode encontrar uma realização completa neste mundo, afinal, se aderiu de verdade, por mais que se esforce, será sinal de contradição e irá gerar resistência e não aplauso da grande maioria das pessoas.

Não quero dizer que os cristãos devam viver emburrados no seu trabalho sem acreditar que algo de bom pode ser realmente feito. Podemos ser felizes. Mas não deste jeito, não nos rendendo a esta mentalidade.
Somos felizes quando vencemos o mundo. A vitória do Senhor foi a morte inglória seguida da Ressurreição para a vida nova. Assim, se nEle queremos encontrar a felicidade, devemos enfrentar nossas pequenas cruzes, buscar a verdade em todos os contextos, sempre mirando mais longe, para a vida que está além desta, sabendo que ter ou não ter reconhecimento não depende de mim. Pode ou não ser interessante nos desígnios de Deus, o que importa é que eu trabalhe bem, fazendo a minha parte com todo amor que eu puder, sendo este amor encarnado em gestos concretos. Querer ser o melhor é simplesmente pecado, querer ganhar cada vez mais para si é ganância. Assim como não defender alguém acusado ou maltratado injustamente é somente covardia. E não há bem nenhum nessas coisas.

O outro mito da minha geração é que a felicidade está associada diretamente ao sexo.

Mesmo bons católicos, muitas vezes se veem tão seduzidos por essa ideia que acabam criando uma espécie de cristianismo sexy, como se fosse possível algo desse gênero. Vão à Missa, rezam com frequência, conhecem os documentos da Igreja, mas lançam seu charme sobre qualquer pessoa do sexo oposto que passe e se acham românticos por fazerem isso. Pensam que ser cristão é ser delicado com as palavras, gentil, amável e...sedutor. Mas não é nada disso.

O cristão não é apenas um namorado ou uma namorada mais romântico ou dedicado. É alguém disposto a amar de corpo inteiro, de alma inteira e até à morte. Alguém que não está contente por simplesmente não trair, mas alguém que não se permite trair em pensamento! Alguém disposto a suportar dores e sofrimentos se for necessário, a chorar junto, a servir e que nesse desprendimento encontra uma alegria verdadeira, que não é deste mundo.

Muitos concordam com a ideia hoje amplamente difundida de que a castidade, e ainda mais a virgindade, é alguma forma de repressão sexual. E bons católicos encontram dificuldades para rebater essa ideia, vivendo uma vida do “quase-sexo a todo instante” como uma forma de conciliar o ideal cristão com a mentalidade contemporânea e às vezes por viverem dessa maneira ambígua acabam ficando reprimidos de verdade,rs.

Não se dão conta que a imensa exposição que o sexo tem hoje no fundo mascara uma profunda frustração. Hoje, se abrirmos qualquer um dos principais jornais online do mundo teremos pelo menos três notícias associadas a sexo. Desde propagandas de sorvete até bonecas para crianças, tudo tem apelo sexual. Mas não nos damos conta que isto é apenas uma grande frustração.

O bêbado sempre acredita que a realização completa está na próxima pinguinha, por isso que continua bebendo. Se ele de fato tivesse desfrutado da pinguinha estaria saciado e não continuaria bebendo. Nunca houve tanto adultério, traições e sexo, mas todos imaginam que se ainda estão insatisfeitos é porque não tiveram sexo suficiente.

A felicidade no sexo está associada à confiança. Confiança que gera uma entrega completa e que tem por resultado um imenso prazer. Mas como posso ter confiança plena em alguém que não declara seu amor por mim publicamente e que não me assume até a morte? Como posso dizer: me entrego inteiramente a você, mas se amanhã não me quiser mais tudo bem...que tipo de lixo seria eu?

Não é o casamento este vínculo inteiro, público, de corpo e alma que torna tudo isso possível?

Se alguém se deita com alguém que entrega seu corpo, mas não sua alma, está apenas fazendo sexo com um cadáver. Um pedaço de carne inerte, que hoje vive, pleno de hormônios, e amanhã apodrecerá e não deixará nada atrás de si.

É verdade que existem nuances, detalhes e que a vida da cada um de nós pode ser medida somente por Deus no seu último dia. Mas é preciso que as referências sejam claras para que olhando tanto os diferentes matizes, não esqueçamos que existem cores. E dizer com todas as letras que se vivemos assim somos apenas bêbados e não sabemos. Somos apenas bêbados, tomara fiquemos sóbrios um dia.

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